
À medida que os anos passaram
À medida que os anos passaram
carreguei comigo uma infância de gritos silenciosos.
Meus primeiros poemas, aos dezesseis anos,
eram mentiras romantizadas —
papel de seda sobre feridas abertas,
negação vestida de rima,
fuga pela fantasia como boia no mar.
Escrevi para escapar da minha própria pele,
para fugir das mãos que quebravam,
da memória que nunca dormia.
Fugi para terras desconhecidas,
para universos de histórias em quadrinhos
onde heróis sempre venciam
e vilões caíam sem derramar sangue.
Todas as noites eu rezava a Deus
por misericórdia,
por um fim silencioso,
para ser libertado do corpo,
para morrer antes de acordar
e não ter de suportar mais.
Aos dezoito anos
o mundo se abriu em pele nua,
em sol e grama,
em cores psicodélicas,
em comida natural e corpos livres,
em orgias hippies,
em marchas pela paz,
em gritos contra a guerra,
no grito primal
que rasgava o peito.
Fugi da rima feminina,
dos finais suaves,
impulsionado por uma psicologia simplificada
e pelos lemas suaves do espírito da época.
“Eu estou bem, você está bem”
tornou-se depois
“Eu estou bem,
mas você me manda para o porão”,
onde a escuridão esperava
como um velho amigo.
Nos meus vinte anos
o amor mudou de forma —
de duas direções
para uma só.
A bissexualidade tornou-se homossexualidade,
e meus versos
ficaram mais intelectuais,
mais abstratos,
velados pela arte
como vidro espelhado.
Dancei as noites até quebrá-las
em clubes de elite
em Nova York,
em Londres,
em Paris.
Luzes de discoteca como altares pulsando,
corpos em sintonia,
o êxtase como batimento —
apenas suavizado
pelo meu trabalho de pianista clássico.
Nos meus trinta anos
a carreira ganhou forma:
editoras e poesia,
palavras como sustento.
Fugi de uma América em declínio
e me mudei para a Europa,
cruzei o oceano
como se a água pudesse purificar.
A poesia tornou-se multilíngue.
O inglês ganhou companhia.
Veio o espanhol.
Veio o francês.
Veio o italiano.
Veio o norueguês.
Veio o português.
As línguas se depositaram em camadas,
como novas peles
sobre a antiga.
Mas meus casamentos
e meus divórcios
ainda mascaravam violência
e abusos sexuais
como uma sombra cotidiana.
Acrescentei novos nomes a mim mesmo:
ativista da AIDS,
ativista cultural,
orador público.
Escrevi e pintei
sobre a cura
através do encontro com a morte.
Viajei pelo mundo.
Encontrei Deus na natureza,
em mim mesmo
e às vezes nos outros.
A poesia ocupou o lugar
das aventuras românticas,
do vinho e do tabaco,
da terapia e do drama.
E agora, nos meus setenta anos,
a poesia é aquilo que eu sou.
Eu vivo.
— Adam Donaldson Powell

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