Erich Auerbach sobre a cultura machista nas primeiras novelas do renascimento

Erich Auerbach escreve da cultura machista o battle of the sexes i as primeiras novelas do renascimento mas esta cultura ja existia antes. 

Auerbach, especialmente em Mimesis, analisa como a “battle of the sexes” (conflito entre homens e mulheres) aparece nas primeiras novelas do Renascimento — por exemplo em Boccaccio — como um tema literário recorrente, muitas vezes tratado com ironia, astúcia feminina e jogos de poder dentro do casamento e do amor.

Mas é importante frisar:

📚 O que Auerbach faz

  • Ele não afirma que essa cultura machista surge no Renascimento.
  • Auerbach mostra que, nesse período, ela passa a ser representada literariamente de forma realista, cotidiana e psicológica.
  • As novelas renascentistas tornam visíveis tensões de gênero já existentes, agora dramatizadas no espaço doméstico e amoroso.

🕰️ A cultura já existia antes

Essa cultura é muito anterior:

  • Na Antiguidade clássica (Grécia e Roma), com papéis de gênero rigidamente hierarquizados.
  • No Direito Romano e no pensamento moral antigo.
  • Na Idade Média, tanto na teologia quanto na literatura (fabliaux, exempla, textos misóginos e também contra-discursos femininos).

O que muda no Renascimento é o modo de representação:

  • Mulheres aparecem como agentes, astutas, capazes de enganar ou subverter a autoridade masculina.
  • O conflito não é mais apenas moral ou alegórico, mas social e psicológico.

🧠 Em síntese

Auerbach analisa a battle of the sexes como um tema literário renascentista, mas essa batalha é expressão de uma estrutura patriarcal muito mais antiga, herdada da Antiguidade e reconfigurada ao longo da Idade Média.

1. Auerbach, battle of the sexes e o Renascimento

Em Mimesis, Auerbach analisa as novelas do Renascimento inicial — sobretudo Boccaccio (Decameron) — como um momento decisivo na representação literária da vida cotidiana. Nesse contexto, surge com força a chamada “battle of the sexes”, isto é, o conflito entre homens e mulheres no espaço do amor, do casamento e da sexualidade.

O ponto central de Auerbach não é a origem histórica do machismo, mas a mudança na forma de representação:

  • O conflito de gênero deixa de ser alegórico ou moralizante.
  • Passa a ser psicológico, social e narrativo, ancorado em situações concretas.
  • As mulheres frequentemente aparecem como inteligentes, estratégicas e ativas, ainda que dentro de uma ordem patriarcal.

2. Continuidade histórica da cultura machista

A cultura que sustenta essa “batalha” é muito anterior ao Renascimento:

Antiguidade

  • Grécia Antiga: exclusão das mulheres da cidadania e da política; confinamento doméstico.
  • Roma: institucionalização jurídica do patriarcado (pater familias), submissão legal feminina.
  • O conflito entre os sexos já aparece em comédias antigas (Aristófanes, Plauto).

Idade Média

  • Tradição teológica misógina (Eva, pecado, carne).
  • Literatura medieval:
    • fabliaux → mulheres astutas vs. maridos enganados
    • exempla → controle moral do feminino
  • Ao mesmo tempo, surgem contra-discursos, como Christine de Pizan.

O Renascimento herda essas estruturas, mas as reinscreve numa nova sensibilidade literária.

3. O que muda no Renascimento

O Renascimento não cria o machismo, mas transforma sua encenação literária:

  • O conflito passa do plano moral para o plano social.
  • A mulher não é apenas símbolo do pecado, mas sujeito de ação.
  • O riso, a ironia e o realismo substituem o tom doutrinário medieval.

Assim, a battle of the sexes torna-se um motor narrativo, não apenas um tema moral.

4. Comparação rápida: Idade Média × Renascimento

Idade MédiaRenascimento
Alegoria e moralRealismo e psicologia
Mulher como símboloMulher como agente
DidatismoIronia
Ordem divinaOrdem social

5. Resumo para ensaio acadêmico

Conforme observa Erich Auerbach em Mimesis, as primeiras novelas do Renascimento, especialmente em Boccaccio, dão forma literária ao que se convencionou chamar de battle of the sexes, isto é, o conflito entre homens e mulheres no espaço do amor e do casamento. No entanto, tal conflito não representa o surgimento de uma cultura machista, mas antes a sua reformulação narrativa. As estruturas patriarcais que sustentam esse embate são herdadas da Antiguidade clássica, reforçadas pelo Direito Romano e pela tradição medieval cristã. A novidade renascentista reside menos no conteúdo ideológico do que na forma de representação: o conflito de gênero passa a ser encenado de maneira realista, cotidiana e psicológica, conferindo às personagens femininas maior agência, ainda que dentro de uma ordem social fundamentalmente patriarcal.

O Império Romano teve, sem dúvida, um papel importante na consolidação de estruturas patriarcais que influenciaram a Europa, mas a cultura machista europeia não teve início exclusivamente nele.

Alguns pontos importantes:

📜 Antes de Roma

  • Sociedades indo-europeias, gregas e até pré-históricas já apresentavam divisão rígida de papéis de gênero, com predominância masculina no poder político, militar e familiar.
  • Na Grécia Antiga, por exemplo, mulheres eram excluídas da cidadania e da vida política muito antes de Roma.

🏛️ Contribuição romana

Roma institucionalizou e juridificou o patriarcado:

  • O pater familias tinha poder legal sobre esposa, filhos e escravizados.
  • Mulheres não tinham direitos políticos e eram juridicamente tuteladas por homens.
  • Essas normas foram registradas em leis, o que facilitou sua transmissão histórica.

✝️ Continuidade na Europa

  • O Direito Romano influenciou fortemente os sistemas jurídicos europeus.
  • A Igreja Cristã, ao se expandir no Império Romano tardio, incorporou e reforçou muitas dessas estruturas patriarcais.
  • Durante a Idade Média e Moderna, essas ideias foram mantidas e reinterpretadas.

🧠 Conclusão

O machismo europeu não nasce em Roma, mas Roma foi decisiva para consolidá-lo, formalizá-lo e transmiti-lo às sociedades europeias posteriores.

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