
Querido Corpo
Talvez seja hora de conversarmos – sabe, sobre o elefante na sala. Sim, sobre o envelhecimento. Veja bem, eu tenho pensado… pensado nas inúmeras vezes em que te incentivei a parar de reclamar de dores, cansaço, estresse físico, resfriados, gripes, etc. Eu sempre sussurrava palavras doces no seu ouvido e te fazia sentir culpado por procrastinar e ser preguiçoso. Sim, você era preguiçoso quando sempre dava desculpas para não ser o superdotado que você sempre deveria ter sido. Como sabemos, nunca somos bons o suficiente – nem aos nossos próprios olhos, nem aos olhos dos outros.
Eu só estava tentando ajudar. Mas a verdade é que eu também já fui sujeito a dúvidas e depressão; e, mais recentemente, demência e perda de memória. Não é sua culpa, meu irmão. O corpo e a mente são máquinas incríveis que normalmente suportam bastante abuso e uso excessivo. Mas todos os regimes de manutenção e medidas de reparo acabam se tornando impotentes diante da inevitabilidade do envelhecimento. Todos nós temos prazo de validade. Nem sempre fui um bom ouvinte, e você também pode ser bem teimoso. Quando eu te ignoro e trabalho contra você por tempo suficiente, você simplesmente entra em greve ou “sofre um acidente”. Claro, essas brigas podem durar anos, criando fraquezas físicas e mentais que reduzem nossa capacidade operacional ao longo do tempo.
Bem, nós sabemos de tudo isso, mano. Gritar conosco mesmos por falhas de comunicação no passado e cooperação às vezes incerta é inútil agora que estamos velhos.
Não podemos concordar em nos aceitar como somos e encarar esta nova fase da vida com dignidade e como o casal que sempre deveríamos ser?
Te amo, amigo!
O RETORNO PARA CASA.
Duas máquinas trabalham em conjunto para transportar o recém-chegado ao seu destino: o terminal de desembarque, a cerca de 18 metros de distância. Uma delas se chama Corpo: um mecanismo milagroso de impulsos e cilindros com veias que bombeia faíscas de inércia para órgãos e membros sem vida. A outra assumiu o nome de Escada Rolante: uma máquina simples e complexa, cujos componentes elegantes de metal e plástico obtêm sua eletricidade de um cérebro não afetado por emoções e pelo funcionamento imprevisível do baço. Juntos, esses dois cérebros planejam contrabandear o Corpo do avião para o terminal sem despertar seu potencial risco de segurança: o sistema emocional. O aparelho ocular do Corpo fixa-se na quarta parede, sem notar o destino nem a paisagem entre elas. O Cérebro envia ao Corpo impressões da Escada Rolante e, simultaneamente, comandos para “buscar e encontrar”. O Baço dorme, suficientemente cego pelos Olhos (e sofisticado demais para implementar as funções há muito descentralizadas dos Ouvidos e do Nariz). Vasos bombeiam… engrenagens giram; e os Olhos notam uma multidão de corpos semelhantes assumindo movimentos parecidos; um sinal é enviado ao Cérebro, com comunicados à imprensa para o Corpo: “Todo mundo está fazendo isso. Logo, deve estar certo!” O Corpo se move em direção à Escada Rolante com entusiasmo; e o Baço acorda abruptamente quando a Escada Rolante ri e diz “te peguei!!!” Mas o desespero só é totalmente compreendido quando o Baço percebe que o Corpo está sozinho na corrente de zumbis que caminham rapidamente, guiados pelo olhar robótico dos Olhos… e ouve a risada unilateral da Escada Rolante, que não engasga nem se abala.

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